Fashionistando

Comunique-se! Uma jogada para se manter no jogo!

Uma reflexão sobre as artimanhas e demandas que as redes sociais trazem para os dias atuais.

Já tinha passado da meia noite e fui até a cozinha, na tentativa de me movimentar um pouco. Não tinha muita opção, os cômodos em que os convidados transitavam se resumiam a uma sala de televisão, ocupada pelos convidados mais velhos e algumas crianças que brincavam no chão. A sala de jantar onde eu já estava sentada a horas dando o melhor de mim em conversas amenas com as demais mulheres que também estavam ali sentadas esperando o tempo passar e uma pequena área onde ao fundo os maridos e namorados bebiam e riam alto. Entre a sala de jantar e a área, havia a cozinha! Minha intenção era ir ver do que eles tanto riam, já que na nossa mesa o assunto já tinha se repetido algumas vezes sem nenhuma gargalhada que valesse a pena. Não é uma reclamação, longe disso, gosto de festas familiares e seus arranjos já esperados, inclusive já ofereci na minha casa várias delas.

Logo ao entrar na cozinha escutei Maria Tereza dizer: “Graci, você está muito sumida!” Em uma daquelas frações de milésimo de segundo tive que decidir se aquela seria só mais uma conversa superficial ou se eu estava disposta a me interessar e apenas por um momento naquela noite, ser eu! Decidi que iria me interessar e entender o máximo que Maria Tereza me permitisse saber do porquê daquela afirmação. Afinal, onde estamos nós quando para os outros parecemos “sumidos”?! Talvez exista uma regra nesse jogo da convivência que sem perceber eu não esteja cumprindo – mas tudo bem. Maria Tereza estava bem na minha frente e eu podia saber um pouco mais sobre isso.

Perguntei para Maria Tereza: “Sumida, eu?” – Afinal, nada fomenta mais uma conversa do que responder uma pergunta com outra. Ela me respondeu: “Sim, antes sempre te acompanhava pelo Instagram e não tenho te visto mais!” Não vou mentir e dizer que me surpreendeu, já desconfiava que o “sumiço” seria mesmo das redes sociais. Nada faz mais parte da minha personalidade do que a “liberdade”! Como alguém livre como eu pode se obrigar a parecer bem sucedida, bem arrumada e inteligente todos os dias do ano?! Seria doloroso demais para mim, realmente está além de até onde posso ir. Nada contra quem consegue e até gosta de postar e compartilhar sua vida todos os dias, mas eu não consigo! Só quero interagir quando tenho vontade e parece que isso vai contra todas as regras do jogo!

Esse tempo que Maria Tereza disse que “sempre me acompanhava” era quando eu contratei uma assistente que fazia o post diário na minha conta, conforme recomendado por todos os gurus do marketing, mas definitivamente não era eu ali. Sei que muita gente ganha muito dinheiro com o marketing pessoal feito nas redes sociais e admiro essa dedicação. Porém, sei também de pessoas que vendem um sucesso fantasioso e bem longe da realidade. No meu caso, não há constância, assim como não há na vida só dias produtivos e felizes, também não haveria no meu Instagram.

Conversei com Maria Tereza por alguns minutos, falamos sobre as redes sociais e essa pressão imensa para estarmos nela, sermos constantes, produtivos e admiráveis. A conversa foi rápida, mas nos conectamos com as mesmas inseguranças. Acredito que agora, quando Maria Tereza se lembrar de mim vai logo pensar que não estou “sumida”, mas estou vivendo uma outra coisa em outro lugar, algo que eu não queira ou não valha a pena compartilhar.

Depois dessa conversa rápida e tão comum me peguei pensando sobre como me comunicar com as pessoas e se realmente é importante fazê-lo. Se não gosto de postar foto do meu café da manhã ou divulgar tudo que faço e vivo no dia a dia, como poderia continuar externando para o mundo o que sinto e penso?

Para além da discussão sobre a frivolidade das redes sociais, estou certa de que a interação com outros humanos é o que nos faz melhorar, crescer e refletir, talvez seja esta característica que mais nos diferencia do restante dos seres vivos. Tantas pessoas que eu gosto, amigos da escola com quem eu cresci e só tenho a oportunidade de ainda fazer parte da vida deles porque vez ou outra vejo uma foto e sei que estão bem, basta eu curtir a postagem e de alguma forma saberão que ainda estou aqui, presente. Pode ser que seja o mesmo que eles sintam quando entram nas minhas redes sociais, talvez seja sobre isso que falava Maria Tereza naquela noite. Então percebi que o importante era me comunicar!

Por algum motivo pessoal que ainda não sei explicar muito bem, não sinto que estou me comunicando quando posto uma foto muito bem feita na pose certa em um cenário bem escolhido. O tempo todo as pessoas parecem usar os velhos e conhecidos gatilhos mentais, elas te dizem algo muito interessante em um post – mas não dizem de forma completa, te dão alguma informação e logo querem lhe vender algo em uma oferta que “é só para hoje”. Tenho sim andado “sumida” desse universo, mas podem acreditar: estou em outro lugar vivendo uma vida verdadeira: a minha, do meu jeito!

Ao meu ver, a comunicação só vale a pena se for para trocar experiências, tentar dividir um pouco de quem eu sou, um pouco do que os meus olhos veem e sentem desse mundo, só me interesso verdadeiramente em compartilhar se for assim. Eu já tinha escrito esta coluna antes de começar o Big Brother Brasil, quando soube de uma participante que enfrentou dificuldades de manter sua estabilidade mental no programa. Isso leva a uma discussão séria, afinal, qual o é o limite do protagonismo de si mesmo?

As pessoas se tornam celebridades em redes sociais, ficam rodeadas por uma equipe, são tratadas como o centro das atenções por todos em uma redoma, dificilmente são confrontadas por quem está por perto. Já tive muitos funcionários e esse pode ser um perigo para o ego: essas pessoas em sua maioria não te avisam quando você está errando, te elogiam quando você acerta e se calam quando percebem algum erro seu. Poucas vezes colaboradores tiveram coragem de me dizer que eu estava errada, mas foram esses os que verdadeiramente contribuíram para meu crescimento pessoal. É interessante ver pessoas famosas no Big Brother, que quando entram no programa, deixam de ser o centro e começam a disputar atenção. Qual a lição mais importante podemos inferir dessa situação? – As pessoas são todas comuns! Eu, você, seus amigos, as pessoas com milhões de seguidores, toda e qualquer pessoa que você já viu ou ouvir falar sentem tantos medos e dúvida assim como você. Não se sentir confortável em ser só mais um pode ser um sinal de alerta!

Assim como a televisão, as redes sociais vieram para ficar; e a regra é clara: precisamos jogar para continuarmos sendo seres sociais. Então para continuar jogando esse jogo, decidi que vou me comunicar com o mundo de agora em diante com o que mais gosto de fazer: escrever! Não vou querer vender nada para ninguém, convencer ninguém a nada, apenas escrever! Pode ser que as pessoas prefiram as fotos e vídeos engraçados, mas se eu tiver vontade verdadeira pode até ser que um dia ou outro eu realize o que de mim é esperado, postando um ou outro vídeo engraçado sobre minha jornada no crossfit, um look que me faça sentir bonitinha ou foto de um frango com quiabo que acabei de cozinhar – amo dividir receitas com vocês! Porém, serão os textos a minha fonte contínua e verdadeira de comunicação. Então vou experimentar me comunicar com todos através daquilo que escrevo. Fico me perguntando se Maria Tereza vai se interessar em ler textos sobre sentimentos, empreendedorismo ou as vezes apenas sobre as emoções sentidas após ouvir uma música. Não sei, mas essa é a minha jogada para tentar ficar nesse jogo!

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do Portal UAI.

Subscribe
Notify of
guest
0 Comentários
Inline Feedbacks
View all comments